Hispânia

Grande parte das cidades turísiticas da Europa estão sofrendo com o excesso de visitantes e tomando medidas para que essa prática não se torne predatória e afete a vida dos cidadãos. Ser um turista tradicional, carregado de todos os estereótipos desta prática, não combina comigo. O euro está valendo quase 7 reais e nessas grandes cidades turísticas o custo de vida é ainda mais alto. Por que, então, viajar para Madrid e Barcelona? Porque existem várias outras nuances e se a oportunidade aparece, se a vontade supera … Por precaução ou por velhice, tudo reservado com antecedência, e até impresso, pra garantir. Vamos!

5 de maio, segunda: de carro de Juiz de Fora até o aeroporto do Galeão para lá deixar o carro estacionado até a volta, uma semana depois: uma das várias comodidades recentes que realmente tem ótimo custo-benefício. Chegar e sair de qualquer aeroporto continua sendo um problema em todo lugar e poder usufruir da tranquilidade desse benefício, pelo menos no nosso país, já é uma grande ajdua. A diária saiu por uma média de 70 reais. O primeiro trecho do vôo, Rio – Roma pela Ita Airways, foi tranquilo e sem atrasos. Cadeira desconfortável e que reclina pouco, mas com bom espaço para as pernas. Atrações na telinha pouco interessantes para mim. Alguns bons filmes, mas quase nada com legenda em português. Levei o tablet mas … esqueci de baixar filmes, então o negócio é dormir. O aeroporto de Roma é gigante mas a conexão foi corrida. O trecho Roma – Madrid também foi calmo, apesar do vôo muito cheio e aeronave apertada.

6 de maio, terça: Chegar no destino já com internet no celular é fundamental. Um plano contratado ainda no Brasil, com dados ilimitados por uma semana, foi o suficiente. Minha esposa e eu compartilhamos a mesma conexão e não ficamos offline em nenhum momento. Do aeroporto de Barajas até o centro de Madrid a melhor opção é o ônibus. 5 euros, menos de meia-hora até a Praça Cibeles, no coração da cidade. Carregando duas mochilas bem pesadas nas costas, mas só elas, não foi tão fácil achar o caminho a pé até a hospedagem. Legal que já descendo do ônibus, encontramos uma feira de livros usados. Dia lindo, feirinha de livros, estou na Europa. Cool!

Puerta de Alcalá, no centro da Plaza de La Independencia, inaugurada em 1778.

As mochilas estavam já incomodando, mas conseguimos deixá-las na hospedagem antes do checkin, após contato com o proprietário. Chegar no local enquanto estava sendo realizada a faxina é bem anticlímax, mas aliviar o peso pra começar a bater perna foi muito bom. São muitos prédios antigos, históricos, bonitos. Vai-se passeando e girando o pescoço, feliz da vida. O grande destaque do primeiro dia foi sem dúvida a Catedral de La Almudena, linda. Altar e corredores em forma de cruz, como em Aparecida do Norte, pé direito altíssimo, lindas imagens. Ao lado, o gigantesco Palácio Real de Madrid (entrada paga, declinamos). Na parte externa, enormes espaços, tuktuks elétricos, um artista de rua cantando em bom português. Caminhamos em direção ao Mercado San Miguel, bonito, badalado, cheio, caro. Vale a visita, não nos instigou a matar a fome. Opção mais barata é a Praça Mayor, com vários restaurantes. O visual estava comprometido pela montagem de um palanque para comemorações das festas de San Izidro, mas foi possível descansar, comer uma tapa e beber uma sangria e uma cerveja. Cansados e com frio, passamos na imprescindível Chocolateria San Ginés. Ótimo churros com chocolate. Voltamos pra casa, via Calle Mayor e Puerta del Sol. A noite demora a chegar e mais e mais pessoas vão enchendo as ruas.

7 de maio, quarta: dia reservado ao Museo do Prado, talvez o principal motivo da viagem. Nunca me pretendi um especialista em arte, mas bastou um período de História da Arte no meu curso de Ciências Sociais para aguçar a curiosidade de estar de frente para aquelas obras históricas e ter a oportunidade de visualizar detalhes que a professora Célia contava com tanta paixão. No caminho, Gran Via, Banco de Espanha e Museu Thyssen-Bornemisza. O Museu do Prado é enorme, corredores infindáveis, turistas de todo mundo, grupos de crianças com suas professoras. Aliás, crianças e adolescentes andando em bando em Madrid foi algo que me chamou atenção. E muita arte, banho de cultura, você não absorve tudo, as pernas reclamam. Um café, um íma de geladeira adquirido e lá vamos nós. Conhecemos também só por fora o Jardim Botânico e o Museu Reina Sofia. Tomamos uma cerveja no Mercado Antón Martin, pequeno e simpático. Mais andanças e repetimos a dose na Plaza Mayor (mais tapas) e San Guinés (mais doce).

8 de maio, quinta: A ideia inicial era ir a Toledo. Fácil de chegar, tanto de ônibus quanto de trem, antiga capital da Espanha e patrimônio mundial. Mas havia muito o que ver ainda em Madrid. Fica pra próxima.

Descer a Gran Via em direção a Plaza da España é observar uma Madrid mais comum: lojas, bancas, teatros (muitos), gente. Na praça estava acontecendo a La Hispanoamericana, uma feirinha com barracas de comida de vários países. Com tempo feio, andamos até o Templo de Debod e arredores, lindos e floridos. Não havia mais entradas para o Templo, mas conhecê-lo por fora já é bem bacana.

Não fosse a chuvinha chata creio que não iríamos ao Santiago Bernabéu, o estádio do Real Madrid. Mas não dava pra ficar andando na chuva, embora tenhamos até comprado um guarda-chuva por 5 euros. Decidimos pegar o metrô, bilhetes individuais pagáveis com cartão em uma máquina, e fomos lá conhecer a história do clube. Entradas adquiridas na hora, pela internet, e a oportunidade única para quem gosta de futebol. Não é o tipo de futebol que me atrai tanto, e talvez por isso tenha achado o tour pelo museu um pouco frio como, aliás, a torcida do clube é atualmente taxada. Mas a história vencedora do clube e de seus muitos craques está toda lá, em detalhes.

Voltamos pelo mesmo caminho, pensando naquelas barraquinhas da Praça de Espanha e lá aterramos, após passar pelo belo Portal de Toledo. Não comemos nada, mas não resisti a tomar um fernet com coca, bebida típica dos bebuns argentinos. Ruim mas bom. Mais caminhos, uma foto com a guitarra do Scott Ian do Anthrax na Hard Rock e jantar. Hora de arrumar as malas para Barcelona.

9 de maio, sexta: um Uber pra garantir e não correr riscos quanto ao horário, e em 10 minutos estamos na Estação Puerta de Atocha para o embarque para Barcelona. As passagens, caras, de trem bala, foram adquiridas ainda no Brasil. Uma viagem direta, agradável, sem problemas. O trem chega a atingir 300 km/h, tem lanchonete, e a viagem é bem mais confortável do que de avião. Em pouco mais de duas horas estamos na Estação Sants, na capital da Catalunha. A ideia era passear um pouco, mesmo com as mochilas pesadas, até a hora do checkin, desta feita em um hotel.

A Plaza de Catalunha estava em obras como, aliás, muita coisa em Barcelona e, para chegar no Museu de Ciências Naturais, que ficaria no meio do caminho entre a estação e o hotel, tivemos que desviar e, pior, subir muitas escadas. Mais um museu lindo, com uma bela visão da cidade. Fica numa parte alta da cidade, que voltaríamos de ônibus, com muito verde e belas paisagens. Recorremos a um taxi, que chamamos pelo Uber (no famoso aplicativo dá até pra alugar patinete elétrica) e fomos para o hotel aliviar o peso. Deixamos as mochilas e partimos a pé para o centrão, avenidas largas e planas, bem diferente da capital.

La Rambla é a avenida, La Boqueria é a feira: destino inevitável, está tudo ali. La Rambla estava em obras, nada que atrapalhasse o imenso fluxo de pessoas (turistas). La Boqueria é um mercado grande, bonito, pitoresco, caro, pega turista. Almoçamos um bom arroz negro com lula, pela experiência valeu, e compramos chocolates que estão ali só pra impressionar, não valeu, não mesmo. Voltando à Rambla, que termina no porto da cidade. Mar, teleférico, shopping. Início de primavera com sol já quente, branquelos saindo da casca. Um monte de prédios lindos e seculares.

Estamos na Europa, tudo aqui já era velho antes desse povo daqui mesmo invadir nosso continente (tá, isso é outra conversa). Pra terminar o dia, tapa com chopp. Louco que ao comprar uma cerveja pra levar para o hotel, algo de que não abro mão, sempre que possível, me senti comprando drogas. Como já passava das 10 da noite, o vendedor insistiu, de modo pouco educado, para que eu escondesse as latinhas. Enfim, a Mahou, ordinária cerveza española, desceu ainda mais saborosa.

Eu tiro é onda, vai
Esse é qual mesmo? Não lembro
De boas

10 de maio, sábado: A Sagrada Família é um cartão postal mundial e seria a prioridade para o segundo dia em Barcelona. Como era impraticável ir a pé e as tarifas de táxi estavam muito caras, restava o transporte público. Mas surgiu a ideia, dado o pouco tempo, a praticidade, o cansaço e a tarifa razoável, do ônibus turístico, que funciona como em Curitiba, por exemplo. Você pode entrar e sair em qualquer parada durante 24 horas e, claro, todos os pontos turísticos são contemplados no trajeto. E foi assim que chegamos na belíssima Catedral. Outro ponto que pesou na escolha do ônibus turístico é que já sabíamos que não seria possível conhecê-la por dentro. O tour previamente contratado foi cancelado dois dias antes e nova tentativa de comprar os ingressos não deu certo. Bem chato, é sabido que os vitrais de Gaudí são incríveis. Por fora, muita gente (mas muita mesmo) turistando. O visual é impressionante é só aguça a vontade de conhecer o interior.

A Sagrada Família, em obra desde sempre

Voltando ao ônibus, o passeio agradável continua. Barcelona tem um parte nova, com suas avenidas largas e prédios altos e modernos, e uma parte alta que, inclusive, passa pelo já visitado Museu de Arte da Catalunha. Lembra que na véspera subimos muitas escadas? Pois é. Já no início da noite descemos na famosa Passeig de Gràcia, tão famosa quanto a Champs-Elysée ou 5ª Avenida. Luxo. Lojas de grife mundial com gente na fila do lado de fora. É, eu também não entendo. Da avenida, onde ficam duas das obras mais significativas de Gaudí, seguimos a pé para o hotel, não sem antes comer um hamburgão e beber cerveja e sangria. Uma taça de cerveja tão grande que nem foi preciso me arriscar de novo na lojinha daquele vendedor estressado.

11 de maio, domingo: A volta para Madrid estava programada só para o início da noite e, como ainda podíamos andar no ônibus turísitico, fomos nele até a praia. Domingão de sol na Barceloneta e outras praias próximas. Muita caminhada e ótima vibe, veleiros, teleférico. A pé voltamos para o hotel passando novamente pela Rambla lotada. Passo acelerado e algum estresse com o táxi para a estação, já que o Uber não completava a chamada. Foi necessário usar o aplicativo da minha esposa, e nele o cartão cadastrado era brasileiro (no meu, troquei o cartão para o Wise, o que é uma dica importante). Resultado: uma corrida de 10 minutos que nos custou 120 reais … Mais uma viagem de trem super tranquila, deixando pra trás o maior clássico do futebol espanhol que rolava no Olímpico, já que o estádio do Barça, como pudemos ver, estava totalmente em obras. Da estação em Madri, mais uma caminhada pela animada noite madrilenha até o AirBnB localizado bem no centro, próximo à movimentadíssima Estação Sol. Jantamos uma tapa (batata brava, brava demais pro meu gosto), ocasião em que vou lembrar do torcedor do Napoli, empolgado vendo o jogo no celular. Também gosto demais do time napolitano, que empatou esse jogo, mas foi campeão ao final da temporada.

12 de maio, segunda: Antes do deslocamento para o aeroporto (tranquilo, ônibus urbano), ainda deu pra caçar umas lembrancinhas e se despedir da capital espanhola. O vôo para Roma atrasou e o embarque na Itália para o Rio foi na correria. Avião vazio, viagem chata, fuso horário. Estamos de vuelta, Brasil.

Mais um ciclo

Eu tenho o hábito de manter um diário. Mas não pra lembrar o que eu comi, ou o quanto eu chorei. Tudo que eu leio e me pega, eu anoto.

Então,

Que sejamos

“tão racionais quanto a ciência e tão irracionais quanto a arte”,

afinal,

“não se ganha nada ensinando uma palavra nova a um papagaio”,

e que no

“eterno combate entre os indignos e os indignados”,

possamos

“descascar mais e desembrulhar menos”.

Nesse mundo em que

“a nuance morreu”,

sou

“muito velho pra quebrar, e muito novo pra domar”.

Sou adulto, vivo meu

“entendimento de regras versus estreitamento de imaginação”.

Mas, por favor

“não aumente sua voz, melhore seus argumentos”.

“Não é uma contradição que o combate à corrupção possa piorar uma democracia?”.

Vivo

“olhando pro céu e tropeçando nos degraus”

e tento

“conciliar a manutenção da saúde com a necessidade existencial da cerveja”.

Resumo-me:

“tudo que está vivo, mesmo que tenha morrido, me interessa. Tudo que já morreu, mesmo que esteja vivo, não me interessa”

Tudo que está entre aspas não fui que disse, lógico. Felizmente vivo num mundo repleto de pessoas muito mais inteligentes do que eu.

Parabéns

Nesta data este humilde e desimportante diário pessoal completa inacreditáveis 18 anos no mesmo lugar: neste universo que, embora digital, é feito e afeito às criações humanas como elas são: incríveis e horrendas, dúbias, espetaculares e terríveis. SIGAMOS.

Saudades do passarinho azul :-)

Nunca pensei que iria dizer isso. Mas vou sentir saudades do Twitter. Acabo de encerrar minha conta, não sem antes receber o arquivo com meus dados para, sei lá, rever algum dia as besteiras que escrevi, tweets entusiasmados ou rancorosos, quase sempre na proporção errada. Não mais o quente ao vivo nos intervalos dos jogos, nas idiotices políticas, os fanbases insuportáveis. E o contato “estreito” com gente legal, de todos os mundos. Vai fazer falta.

14 anos da primeira postagem no microblog

O Facebook sempre foi chato demais, desde a época de joguinhos pentelhos e pessoas que “falam demais por não ter nada a dizer”. O Instagram é o mundo fake, falso, fútil. Tô lá ainda, mas o Android tá programado para que ele funcione 20 minutos por dia. E nunca chego a isso. Para as outras redes nunca tive saco para testar o suficiente para dizer se são legais ou não. Tenho certeza que não são.

O bilionário lá não vai sentir minha falta. Outros, humanos ou não, terão ideias mirabolantes e eu, cético, vou dar uma olhada, como a um trailer de um filme que eu não vou assistir. Antissocial.

Donita

A gente vai fazendo scrolling, toda hora, todo dia. Vendo coisas repetidas e desnecessárias. Aí eu vejo agora, e não é desnecessário, que Donita Sparks completa 60 anos. Donita, vocal e guitarra do L7. L7? A banda que eu assisti no Rock in Rio, no mesmo dia do Nirvana. O que não quer dizer absolutamente nada, tendo em vista que Bricks Are Heavy, o maior trabalho dela, delas no caso, já que foi uma banda formada só pelo sexo forte, foi o primeiro CD que eu comprei na vida. Antes de ter um aparelho que tocasse CD (eu pagava um consórcio. Sim, um consórcio para adquirir um aparelho de CD).

Obrigado Donita Sparks

30 anos hoje

Bob Mould é careca. E é gay. Quando eu tinha 8 anos ele fundou, junto com o Greg e o saudoso Grant, uma banda de hardcore que era tudo, e também hardcore. Não posso falar de Husker Du, sou suspeito. A banda acabou com os cara tudo drogado e brigado. Rock.

Em 1992 o rock barulhento mandava no mundo, nas paradas, na porra toda (que tempos, que tempos). E Bob formou o Açúcar. Que há exatos 30 anos atrás lançou Copper Blue, o disco que tem Changes, tem Helpless, tem Man on the Moon e tem A good Idea. Que eu ouvi, bati cabeça, fiz air guitar, air drums, air pandeiro.

Em 2013 eu fui ao show do Grant Hart em São Paulo. Eu e mais 20 pessoas. No final eu pude falar que o amava. E que também amava o Bob. Ele não deve ter gostado disso.

Não tem Sugar no Wikipedia, A good idea não tem vídeo. Eu nunca entendi a letra. Mas eu tava lá. E juro que era foda.

Tambores psicodélicos

No início dos maravilhosos anos 90 havia o rock. Nos dois primeiros anos da década foram lançados alguns dos melhores discos de todos os tempos. Em todas as listas, dessas que agora saem toda semana, sempre vai ter um grunge e um Beatles. Um britpop e um Led Zepellin. Guitarras dominavam e eu gostava muito. 1994 teve morte do Senna e Copa do Mundo. E Raimundos. Rock com rabeca. Era mais purista e preconceituoso que hoje, não a ponto de não gostar daquela mistura. Era alto, rock rebelde.

Mas me lembro bem de quando ouvi Da Lama ao Caos pela primeira vez. Tinha guitarra, tinha mistura, mas não tinha putaria. “Posso sair daqui pra me organizar, Posso sair daqui pra desorganizar”. Tinha um gênio lá, tinha uns tambores, uma psicodelia. Tinha Hendrix e Luiz Gonzaga. Pirei. Depois de muito indie em inglês tocado por bandas brasileiras que eu amava, eu agora podia dizer que também tinha música em português que achava foda. Vieram a reboque duas de minhas bandas preferidas: Devotos do Ódio e Mundo Livre S.A.

O imperdível Festival In-Edit trouxe na programação deste ano o filme sobre essa cena recifense.

Com depoimentos de seus criadores, companheiros e herdeiros, Jura Capela nos conta como que um movimento estético, vindo do mangue, aumentou a visibilidade das periferias e manifestações culturais da região metropolitana do Recife. Unindo diversas vertentes como música, cinema, artes visuais e literatura, o Manguebeat não só se consolidou um dos mais importantes movimentos culturais das últimas décadas, mas também gravou para a posteridade nomes como Chico Science & Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, o festival Abril Pro Rock, entre outros.

Outra que me chamou muita atenção logo de cara foi Maracatu Atômico. Cara, com um nome desse 🙂 Som que demoraria muito tempo para eu descobrir tratar-se de uma música de Gilberto Gil. Lúcio Maia, o ótimo guitarrista da Nação Zumbi, inclusive, fala no filme que eles eram bons de regravação. Concordo totalmente até porque, muito tempo depois, em 2017, a Nação Zumbi cometeria Radiola NZ, um ótimo disco de covers:

Quando um filme termina e eu tenho vontade de fazer um monte de coisa relacionada a ele, é porque realmente curti muito. No caso, vim logo escrever isso, ouvindo as bandas do movimento, buscar meus CD no fundo do armário, ripar, ler o encarte. Relembrar essa macumba. Salve Chico Science!

Velhas ondas radiofônicas

Essa é uma história de amor. Vamos a ela …

Todos temos aquelas lembranças da infância, aquele momento que continua vívido na memória, aquele instante que não se apaga. Você não se lembra de alguma coisa que aconteceu ano passado (ainda mais atualmente, onde parece que acontecem milhares de coisas todo dia), mas tem aquele momento marcado na sua mente. Ou vários deles. Como o móvel que tocava som (sim) em que meu pai ouvia jogos do Fluminense e discos de bolero.

Um móvel com toca-discos escondido


Minha mãe tinha, e ainda tem, uma mania curiosa. A primeira coisa que faz quando acorda é ligar o rádio. Sempre foi assim. Eu tomava meu lanche e me preparava para a escola ao som de algum comunicador Globo. 1220AM. Um conjunto de letras e números que diz muito pra muita gente. Show do Antônio Carlos era cedinho, Haroldo de Andrade tinha debate ao meio-dia, Luiz de França tinha efemérides vespertinas. Mamãe só dava um descanso pro bichinho depois da Ave Maria.


Uma escapadinha para a Tupi, Nacional, Tamoio. Bastava uma mudança na programação pra Dona Lúcia tentar achar abrigo em outras ondas curtas. Mas sempre voltava. Aqueles caras faziam parte da família, aquelas notícias, O Globo no Ar de hora em hora, eram verdades incontestáveis. Nos fins de semana a programação mudava. Tinha especiais com Roberto Carlos, tinha futebol. O radinho nunca descansava.
Com a adolescência, os amigos, o pop-rock que dava as caras, Dona Lúcia perdeu minha companhia junto ao aparelho, aquilo já não me interessava tanto. Mas a semente estava plantada.

Nas FM, mais descoladas e de som melhor, tinha Rádio Cidade e Transamérica (Rock que Rola por Essas Bandas, clássico total). E tinha a Fluminense FM de Niterói, a Maldita 94,9 Khz me pirando total. Foi o suficiente pra me descolar do pop rock brazuca que inundava o dial. Sempre gostei muito de Titãs e Ira!, mas não gostava muito do resto. E a Maldita me fez caminhar para outro lado. Do lado do Mack Twist, que nas manhãs tocava skate rock e me adrenalizava com os maravilhosos clássicos Institucionalized, do Suicidal Tendencies, e Johhny Hit and Run Paulene, do X, Surfista Calhorda, dos Replicantes, entre tantos outros. Sons que moldam uma personalidade, marcam uma vida, hits de uma existência. Você se sente meio dono. Tinha muito mais naquela estação niteroiense: o grande José Roberto Mahr e seus Novas Tendências. Ah, quinta-feira à noite era dia de ajeitar bem o Walkman no único lugar da casa que o sinal não fugia, e curtir aquelas duas horas (uma de indie, uma de eletrônicos) e ouvir um mundo maravilhoso de novos sons. Eu lia na BIZZ e esperava o José Roberto Mahr tocar. Aliás, eu tive o prazer de conhecer o DJ Zé Roberto, assistindo a gravação de um programa seu, já na Cidade FM. Uma baita experiência, assistindo tudo no estúdio, ao vivaço, e ainda levando pra casa os prêmios do dia, um poster e uma camiseta do The Doors, o filme que estava estreando Brasil.

Philips SkyMaster só tinha rádio e maravilhosos controles de volume independentes deslizantes (!). O Walkman Sony (a pilhas) foi comprado com o (uau) cartão de crédito de um amigo. Muita modernidade.


Mas voltando à Flu FM de Niterói: um marco na vida dos poucos que foram expostos a suas ondas sonoras (poucos, porque o alcance era pequeno). Eu gravava vários programas: além do NT, o College Radio, do Rodrigo Lariú, que até hoje faz seu belo trabalho em prol das guitar bands brazucas, com seu selo Midsummer Madness, e o Hellradio, que teve vida curta, apresentado por Tom Leão e o baixista da Plebe, André X. Tinha ainda um programa que você mandava a programação inteira pra eles tocarem, tipo “um-programa-só-seu” (mas que, na minha vez, foi editado e colocaram coisas que eu não pedi! 🙂


Inicio dos anos 90. O tempo não pára. Agora é hora de trabalhar e ganhar dinheiro. E viver a chegada do revolucionário Compact Disc. O redondinho brilhante prometia qualidade superior, mais tempo de música, mais isso e melhor aquilo. Enquanto isso, nos sebos do Largo de São Francisco, centrão do Rio de Janeiro, vinis a 1 real, afinal o povo só queria a novidade a laser. Várias tardes de sexta-feira dedicadas ao garimpo do bichão preto, feio e chiado, papelão amassado, de som ruim e tosco (vinis não eram hype, não eram caríssimos, viviam um deprimente fim de sua primeira vida). Enquanto no mesmo centrão do Rio de Janeiro eu comprava o primeiro CD da minha vida, Bricks are heavy, do L7, eu aguardava a sorte de ser contemplado no consórcio do meu 4 em 1 Sharp (rádio, duplo deck, CD e vinil, o que pode ser mais excitante?).

Quando finalmente fui contemplado com aquela pequena maravilha, mal sabia o que ouvir primeiro: sintonizar a Flu FM e dar um REC naquele cassete virgem BASF 90 comprado no camelô da Uruguaiana, sentir a emoção de botar o CD na gavetinha e ver o painelzinho digital laranja anunciar o número e a duração da faixa ou meter o vinilzão do Ten e cantar Alive a plenos pulmões?
Foi no aparelho Sharp que até hoje sobrevive na casa da Dona Lúcia (olha ela aí de novo) que eu gravei fitinhas cassete pra dar de presente aos amigos, naquela ânsia de “propagar os bons sons” (Fábio Massari). Nele ouvi música tão alto que, mesmo de fones ouvido, acordava meu pai. Naquele aparelho de som o rádio já brigava por espaço com as mídias. Além da Flu FM pouca coisa chamava atenção no dial AM/FM: um futebol no AM, “comunicadores” chatos nas FM, frequência que a dona Lúcia nunca ouviu: o radinho na cozinha era só AM, o aparelho “da sala” era muito difícil de mexer.

Rádio, disco, fita, CD, display de led. Um companheiro de muitas e agradáveis horas

No saudoso e porraloka período em que morei com amigos no Rio de Janeiro eu comprei um CD player portátil, tipo boombox, para alegrar nossas farras naquele apartamento com muitas histórias pra contar. As já citadas rádios e sua programação rock dividiam espaço com alguns CD e, principalmente, com gravações em fitas cassete da programação, de demotapes recebidas pelo correio e do bom e velho escambo: alguém gravava, passava, copiava, roubava. Piratas!

Que saudade desse carinha

Quando fui em morar em Manaus, as primeiras coisas que comprei, depois da geladeira e do colchão, foram um computador e um aparelho de som. O desktop já começava a ser imprescindível em um lar e o incrível Pionner, adquirido na Zona Franca de Manaus, sintonizava rádio, claro, e tinha, ainda, além do CD player, um tocador de minidisc! Sim, agora eu podia comprar disquinhos virgens e gravar rádio e CD (alugados) com qualidade digital. E podia, ainda, pasmem, escrever e gravar os nomes das músicas gravadas, que iriam aparecer no lindo display azul.

Muita alegria para um jovem solteiro e apaixonado (por som)

A entrada em cena daquela CPU branca, do monitor CRT e da conexão discada são o início da nova era. Não sem saudosismo: Napster, Audiogalaxy, Soulseek, madrugadas em claro. Mas isso é outra história.

Onde toca rádio nesse troço?

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Antiga estação ferroviária de Ubá

Rodeiro
Piraúba
Rio Novo
Juiz de Fora – Coronel Pacheco – Tabuleiro – Rio Pomba – Ubá – Rodeiro – Sobral Pinto – Astolfo Dutra – Piraúba – Guarani – Rio Novo – Goianá – Coronel Pacheco – Juiz de Fora
Aproximadamente 230 km

Percorrido em 23 de janeiro de 2022, com uma Honda CB 500X

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Registro do Paraibuna, caminho novo da Estrada Real

Em Rio das Flores , muitas fazendas da época do Ciclo do Café
Mais uma das muitas estações de trem abandonadas, desta feita em Sapucaia
Além Paraíba
Aproximadamente 360 km

Percorrido em 16 de janeiro de 2022, com uma Honda CB 500X